Chocou-me, barbaramente, o descaso da população chinesa para com o atropelamento de uma garotinha de apenas 2 anos de idade. Após atropelada, o motorista ignorando o ocorrido, seguiu seu caminho passando vagarosamente com o pneu, novamente, sobre o corpinho da menina.
Como se não bastasse, diversos transeuntes passam pela menina e simplesmente ignoram a situação. Bicicletas desviam-na e um carro, outra vez, atropela-a.
Somente depois de algum tempo, uma mulher compadece-se e decide ajudá-la.
Obviamente, devido aos seguidos traumas e do descaso da população, já no hospital, a menina veio a óbito. (quem quiser assistir o vídeo, clica aqui, mas não recomendo).
O que gerou perplexidade não foi o atropelamento em si e a fuga vagarosa do motorista. Isso é muito comum, inclusive em Santiago. O que surpreendeu, negativamente, foi o desprezo com que a população chinesa, (representada por aqueles que passaram pelo local, durante e após o atropelamento), manteve-se diante de tudo.
Mesmo com a medida imposta, de que os chineses devem limitar-se a, no máximo, dois filhos, a população parece deixar claro (com tal postura diante do atropelamento), que mais um ou menos um chinês vivo não faz diferença.
Resguardadas as diferenças, esse fato fez-me refletir acerca do quanto a população chinesa (humana?!) se compara com outras espécies. Sim, esse descaso para com os seus também ocorre com outras espécies.
Algumas espécies despendem grande parte de suas energias para fase reprodutiva, fazendo com que a geração de prole, a cada ato reprodutivo, seja numerosa. Na verdade, foi uma forma de compensação que essas espécies adquiriram já que o índice de mortalidade, logo após ao nascimento, era significativamente elevado. Esses "filhotes", que não possuem cuidado parental, ficam suscetíveis aos intempéries e aos constantes predadores. Apenas uma minoria consegue sobreviver, crescer e reproduzir.
Ecologicamente falando, isso sempre me chocou: como pode uma mãe se comportar dessa maneira? Produzir em grande proporção sabendo que a maior parte de seus filhos estarão fadados ao insucesso/morte?
Deve-se compreender que se trata de uma estratégia que as espécies chamadas r estrategistas (oportunistas) adquiriram em busca da sobrevivência, ou seja, produzir numerosos descendentes já que as limitações do ambiente (principalmente predação) impõem que poucos sobrevivam. É assim que garantem a continuidade da espécie.
Por que comparo isso com o que aconteceu na China?
O elevado crescimento populacional da China, no meu ponto de vista, assemelha-se muito a esta estratégia de sobrevivência. A população cresceu tanto (principalmente em outros momentos), que os indivíduos tendem a não se importar com os demais. Como estrategistas r, sabem que se alguém morrer, outro estará a caminho e garantirá a perpetuação da espécie. Por outro lado, se mais gente morrer, haverá menos competição (pelo menos, intraespecífica). E isso representa menos disputa, seja na busca por recurssos (alimento), trabalho, enfim, melhores condições econômicas, sobrevivência.
Isso é lastimável de se verificar na espécie humana.
As demais espécies passaram por muitos processos adaptativos, seleção natural, que levaram a estas especializações. Mas dentre os humanos, eu esperava que, mesmo diante de uma superpopulação, o fato de sermos os únicos seres capazes de raciocinar, desencadeasse um modo de agir diferente. O instinto de piedade deveria dominar no momento em que um ser, da nossa própria espécie, estivesse em apuros. Ainda mais se tratando de uma indefesa criança.
Sinceramente, o atropelamento desta menininha chinesa, fez-me refletir acerca dos nossos atuais valores. E, principalmente, acerca dos valores que poderão ser desenvolvidos se as populações continuarem crescendo nas proporções atuais.
Será um "quem pode mais, morre menos" e "salve-se quem conseguir".
Aliás, será que desenvolveremos capacidade de adaptação a ponto de garantir a perpetuação de nossa espécie? Será que as teorias básicas da ecologia valerão para nós? Ou algumas atitudes, típicas da espécie humana, desencadearão nossa extinção?