quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Um dos melhores textos que já li!

Reproduzo abaixo, um dos textos mais esclarecedores e realistas que já li. Trata-se de uma resposta do Senhor Silvio Meincke ao jornalista Rogério Mendelski. Não conheço o teor dos comentários de Mendelski, portanto, não sei o que ele quis dizer e não o estou criticando. Apenas reproduzo o texto de Meincke por ser uma resposta que muitos deveriam ouvir, inclusive a imprensa, mas que raramente tem oportunidade. 

Destaquei as partes mais interessantes e verdadeiras, na minha opinião!

Boa leitura:

"Senhor Mendelski:

Com as palavras abaixo, certamente, irei chover no molhado, porque nâo tenho novidades para contar-lhe, uma vez que o senhor teve uma bela formaçâo e ocupou-se com assuntos de muitas áreas, diante de microfones potentes, durante muitos anos. Portanto, o senhor já estará informado sobre qualquer assunto que eu ventilar aqui. Ainda assim, quero dar-lhe retorno, para mostrar que dei atençâo aos seus argumentos.
Infelizmente, preciso escrever na corrida, porque logo mais estarei embarcando para um congresso sobre produçâo de alimentos livres de manipulaçâo genética, que ocorre em Berlim.

Vejo a liberdade da imprensa entre os avanços mais importantes da humanidade. Na sociedade em que estou inserido atualmente, o binômio liberdade e responsabilidade da imprensa é assunto muito observado e
debatido, inclusive nos programas televisivos dirigidos a crianças.

A sociedade brasileira é dividida. Nâo se trata de arestas que devam ser aplainadas com o aumento da produçâo, com o crescimento do PIB, com melhoramento moral dos empobrecidos. A divisâo está no cerne, na origem, e ela vem desde 1500, com uma história de 400 anos de escravatura, com povos indígenas dizimados, com escravos cinicamente libertados para a miséria, sem casa, sem terra (lei das terras de 1850), sem poupanças, sem crédito, sem relaçôes, sem nome.

Conforme Darcy Ribeiro, a matriz da sociedades brasileira sâo os mestiços de escravos, de indígenas e de portugueses pobres, parte destes deportados. Uma populaçâo empurrada para a margem e mantida aí desde sempre.

Ainda que a situaçâo tenha apresentado melhoras a partir da virada do milênio, o Brasil continua apresentando um dos maiores fossos sociais, em âmbito mundial, que separam vencedores e vencidos, condomínios fechados e favelas, pessoas que foram feitas pobres e pessoas que empobrecem outras. No índice GINI, o Brasil apresenta o número 58, a Alemanha 27, a Índia 37, a China 47. Os 10% de de pessoas mais pobres consomem 1% no Brasil, na Alemanha 3,2%, na Índia 3,6%, na China 1,6%. Os 10% de pessoas mais ricas consomem 45% no Brasil, na Alemanha 22%, na Índia  31%, na China 35% ( cf. Alexander Busch, em Wirtschaftsmacht Brasilien - Bundeszentrale für politische Bildung).

Essa divisâo nâo é fruto do acaso, nâo é vontade de Deus, nâo é sina, nâo é falta de trabalho, nem mesmo é insucesso, pelo contrário, é o sucesso de camadas sociais com poder suficiente para organizar a sociedade brasileira dessa forma.

É o êxito de quem queria e quer a sociedade assim, apesar dos discursos em contrário.

Onde uma sociedade apresenta tal fosso social, fatalmente irâo aparecer sociedades paralelas que precisam organizar-se e mudar as leis para sobreviver. Fatalmente irâo surgir líderes que irâo organizar as massas, enquanto nâo forem seletivamente eliminados. Fatalmente irâo surgir profetas que denuciam as causas do sofrimento e apontam as consequências, a exemplo de um Geremias, de um Oséias, de um Amós. Surgirâo também os profetas do Rei, a exemplo de Amazias, que irâo falar meias verdades, porque assumem a funçâo de manter as coisas como estâo.

Diante do fosso social nâo há leitura neutra, porque cada leitor usará as lentes das suas origens, das suas experiências pessoais e, principalmente, os óculos do grupo social com o qual se identifica.

O posicionamento de profissonais da comunicaçâo, seja em favor da margem direita, seja em favor da margem esquerda do fosso, é legítima, por dois motivos: 1) É inevitável e 2) cabe dentro de uma sociedade democrática.

O que nâo é legítimo, por nâo ser democrático, e por representar uma imprensa irresponsável, é quando um profissional da imprensa usa largos espaços para combater uma das margens, sem dar às pessoas dessa margem mesmo espaço para defender o seu ponto de vista e os seus interesses. Nâo é legítimo, por exemplo, quando um profissional de imprensa diz cobras e lagartos contra líderes populares, contra grupos sociais organizados, sem ouvir as mesmas pessoas, sem conhecer a sua realidade, sem respeitar a sua dor e o seu desespero; quando combate atitudes de famílias de despejados, de sem teto, de pequenos agricultores, do alto do seu pedestal, sem nunca ter conhecido de perto integrantes desses grupos, sem nunca ter feito uma bolha carregando esterco com os pequenos agricultores, sem nunca ter chorado com uma mâe que leva sua criança à sepultura por falta de recursos; quando combate os teólogos da libertaçâo sem nunca ter aproveitado as inúmeras oportunidades de informar-se, em congressos, conferências, seminários ou mil outras oportunidades. Pior, quando saca frases isoladas, escritas ou faladas, onde ficam reduzidas a meias verdades, para serm divulgadas como verdades completas. Nâo preciso dizer ao senhor que tais profissionais da imprensa surgem cá e lá. Eu os conheci diante de diferentes microfones, seja nas capitais, seja no interior. Nâo preciso dizê-lo, porque o senhor conhece o meio melhor do que eu. Nâo honra a liberdade e a responsabilidade da imprensa um profissional que deixa de pesquisar a fundo os temas de relevância social que aborda, em uma sociedade com pessoas tâo sofridas como a brasilieria; pesquisar para aproximar-se o mais possível a verdade, para nâo acomodar-se com análises superficiais ou preconceituosas, pior: com análises moralistas da realidade, quando as causas devem ser buscadas com análises das estruturas do poder, das estruturas sócio-políticas, das decisôes tomados no decorrer da história.

Com análises moralistas, a causa da pobreza será a preguiça, a cachaça, a falta de vontade, o número elevado de filhos, as origens étnicas. Pior: Quando o profissional da imprensa faz essas análises em rádios da capital, será papagaiado por inúmeros profissionais de pequenos jornais e pequenas rádios do interior, seja por comodidade, seja por falta de recursos para pesquisa própria, seja por interesse, formando uma rede de emburrecimento, de alienaçâo e de desinformaçâo, quando a nobre missâo da imprensa é formar através da informaçâo e do debate fundamentado, com o fim de libertar, com o fim de construir uma organizaçâo social justa ( onde a justiça e a paz andam de mâos dadas como irmâs gêmeas; justiça como a entende o Antigo Testamento, no sentido de que cada pessoa tenha direito a uma vida digna, tenha acesso ao suprimento de suas necessidades básicas (nâo justiça no sentido de vingança, como tantos querem). Paz que todos queremos, mas que nunca alcançaremos sem justiça social. E o grande ideal do amor ao próximo, que todos apoiamos, e que, referindo-se à organizaçâo social, passa a chamar-se justiça social.

Nâo conheço nenhum profissional da imprensa que tenha mudado seu discurso quando mudou a empresa patrocindadora. Mas conhecí vários que adaptaram seu discurso aos interesses da margem de onde vem seus patrocinadores. Assim como conheci vários profissionais da imprensa (e nâo somente profissionais desse meio) que apoiaram a ditadura militar enquanto ela foi forte, e passaram a enfeitar-se com louros de campeôes da democracia, logo que a ditadura esgotou o seu modelo.

Por que estou falando tudo isto? Por dois moitivos. 1) Sempre fui sensível à dor, seja de pessoas, seja de animais, enfim, de todas as formas de vida. Fico enormemente triste quando vejo o potencial do Brasil, onde cresce no Norte o que nâo cresce no Sul, cresce no Oeste o que nâo cresce no Leste, onde temos sol todos os dias do ano, onde a vaca busca, ela mesma, o seu pasto, onde a terra nâo fica coberta de neve durante seis meses, onde nâo precisamos gastar energia com aquecimento das casas durante a metade do ano, onde se produz 3 vezes as calorias que o povo brasileiro necessita para alimentar-se, onde temos tudo, onde nada justifica a existência nem mesmo de uma única pessoa miserável, mas onde também temos as diabólicas duas margens.

Entâo, fico frustrado e entristecido, quando vejo e ouço formadores de opiniâo (políticos, professores, pastores conservadores, jornalistas) que se especializam em combater as pessoas que querem estreitar ou eliminar o fosso, sejam professores conscientes, sejam teólogos da libertaçâo, sejam lideranças populares. Fico enormemente triste quando crianças famintas sâo presas ou eliminadas como criminosas e quando se quer aumentar a repressâo, atacando os frutos no lugar das raízes. Quando profissionais da imprensa botam lenha na fogueira para os que pensam em repressâo e vingança, em vez de apontar para as históricas raízes e causas.

Fico enormemente triste, porque sei que o fosso poderá ser dimimuído unicamente pela açâo organizada das pessoas que mais sofrem com o fosso; porque as camadas que sâo privilegiadas pelo fosso farâo tudo para mantê-lo, como já fizeram durante 500 anos. Fico enormemente triste quando as camadas que sofrem com a existência do fosso, muitas vezes ignaras e analfabetas ou semi-analfabetas, sâo manipuladas com verdadeiras campanhas de desinformaçâo e quando parte da imprensa assume a funçâo de desinformar.

2) Porque estou nadando, com grande convicçâo, na caudalosa correnteza da cultura judaico-cristâ, que conta mais de 6 mil anos de idade, e é cultura de libertaçâo; libertaçâo de todas as formas de opressâo; correnteza que tem na sua nascente na libertaçâo experimentada pelo patriarca

Abraâo, quando aprendeu que nada justifica o sacrifício de uma pessoa, em nome de nenhum deus, nem do deus pátria, nem do deus mercado, nem de deuses de quaisquer que sejam suas ideologias; libertaçâo que continua com a saída de escravos do Egito; com a atuaçâo dos profetas, com o carpinteiro nazareno (que iniciou suas atividades visitando cegos, lunáticos, paralíticos, coxos, leprosos, e portadores de demônios, sem deixar de acolher portadores de medalhas, quando vinham para abrir a mente). Correnteza de libertaçâo que continua com os seguidores e as seguidoras do nazareno, até os nossos dias, entre os quais muitos profetas que, como sempre, ainda vem sofrendo, além de ataques verbais, a eliminaçâo seletiva ou o silêncio da grande imprensa (que matéria importante poderia ser a história de eliminaçâo do povo Kaiowá, em pleno andamento, por profissionais da imprensa que fossem lá, para conviver com este povo, para experimentar o seu desespero e o seu sofrimento e para conhecer os profetas que arriscam a vida ao lado deles).

Bem, que preciso encerrar, para nâo perder o trem e, também, porque já dei linhas demasiadas a este texto que havia planejado menor.

Com votos de muitos bons dias, fico

cordialmente, Silvio Meincke. "
 
Que texto! Socializo-o para que muitos desçam dos seus pedestais e reflitam a respeito antes de julgar quem quer que seja!
 
abraços
 
Lizi